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A história da computação é um mosaico fascinante de conquistas tecnológicas, grandes sucessos e curiosidades intrigantes. Máquinas icônicas como o IBM PC, o Apple II e o Commodore 64 são lembradas como marcos de uma era que transformou a sociedade, levando a tecnologia para os lares e abrindo portas para a era digital. Esses computadores não apenas definiram padrões, mas também serviram como inspiração para gerações de desenvolvedores e engenheiros. Contudo, para cada máquina celebrada, há um número quase esquecido de dispositivos que, embora menos conhecidos, desempenharam papéis fundamentais ao trazer inovações ousadas e soluções criativas para os desafios do seu tempo.
Essas máquinas "esquecidas" muitas vezes foram pioneiras em conceitos que só seriam amplamente reconhecidos anos ou décadas depois. Algumas introduziram tecnologias de interface, outras, arquiteturas de hardware visionárias, enquanto algumas ousaram redefinir o que um computador pessoal poderia ser. Apesar de muitas terem desaparecido das prateleiras e do imaginário coletivo, elas ajudaram a pavimentar o caminho para os dispositivos que usamos hoje.
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Tandy TRS-80: o precursor acessível
Arquitetura: Baseado no processador Zilog Z80, operava a 1,77 MHz e vinha equipado com 4 KB de RAM, expansível para 16 KB. Utilizava fitas cassete como meio de armazenamento primário.
Lançado em 1977 pela Tandy Corporation, o TRS-80 foi um dos primeiros computadores pessoais de sucesso comercial. Com um preço relativamente acessível, ele trouxe a computação para pequenas empresas e entusiastas, permitindo tarefas como processamento de texto e gerenciamento de dados. Apesar disso, sua popularidade diminuiu rapidamente na década de 1980, eclipsada por concorrentes como o Apple II.
Curiosidade: o apelido "Trash-80" surgiu como uma brincadeira entre os usuários devido às limitações de hardware e software, mas também reflete o carinho com que o TRS-80 era lembrado.
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Sharp MZ-80: inovação modular
Arquitetura: Processador Zilog Z80 operando a 2 MHz, com 16 KB de RAM e suporte a gráficos monocromáticos.
A série Sharp MZ, iniciada com o MZ-80 em 1978, foi pioneira em um design modular, onde periféricos como gravadores de fita e impressoras podiam ser acoplados de forma integrada. Diferente de muitos concorrentes, ele não vinha com software em ROM, o que permitia aos usuários maior liberdade para programar e criar aplicativos personalizados. Apesar de popular no Japão e em alguns países europeus, a série MZ nunca alcançou sucesso global.
Osborne 1: o primeiro computador portátil
Arquitetura: Alimentado pelo processador Zilog Z80 a 4 MHz, vinha com 64 KB de RAM e dois drives de disquete de 5,25 polegadas.
Em 1981, o Osborne 1 foi lançado como o primeiro computador portátil, mesmo que o conceito de “portátil” fosse relativo — ele pesava mais de 10 kg! Equipado com uma tela de 5 polegadas e software como o WordStar e o SuperCalc, ele foi um marco. Contudo, erros de marketing e o lançamento de modelos concorrentes mais avançados levaram ao colapso da Osborne Computer Corporation.
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Xerox Alto: à frente de seu tempo
Arquitetura: Equipado com um processador bit-slice de 16 bits e 128 KB de RAM. Sua interface gráfica suportava resoluções de 606x808 pixels em preto e branco.
Desenvolvido em 1973, o Xerox Alto foi o primeiro computador a introduzir uma interface gráfica (GUI) e um mouse. Apesar de nunca ter sido comercializado em larga escala, ele inspirou diretamente o desenvolvimento do Apple Lisa e do Macintosh. Sua exclusividade e preço elevado, por volta de 16 mil dólares na época (algo em torno de 49 mil dólares atualmente, ou mais de 200 mil reais😲) fizeram dele uma peça de laboratório mais do que um produto popular, tanto que sequer se encontram propagandas de época em jornais em revistas da Xerox oferecendo o Alto aos consumidores.
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CCE MC-1000: o Brasil em destaque
Arquitetura: Baseado no processador Zilog Z80A, com 16 KB de RAM, expansível para 48 KB, e gráficos em resolução de 256x192 pixels.
O MC-1000, fabricado pela CCE nos anos 1980, foi uma tentativa brasileira de democratizar o acesso à computação. Com compatibilidade limitada e um design que lembrava o ZX-81, ele enfrentou dura concorrência de modelos mais robustos como o MSX. Apesar disso, o MC-1000 foi um marco na história da computação nacional, mostrando a capacidade brasileira de inovar em um mercado desafiador.
Clones brasileiros notáveis: o Microdigital TK85, inspirado no ZX Spectrum, e o Prológica CP 400, um clone do TRS-80 Color Computer.
Commodore PET: o pioneiro educacional
Arquitetura: Baseado no processador MOS 6502 operando a 1 MHz, com 4 KB a 32 KB de RAM e gráficos monocromáticos.
Lançado em 1977, o PET (Personal Electronic Transactor) foi um dos primeiros computadores pessoais integrados com teclado, monitor e gravador de fita em uma única unidade. Muito utilizado em escolas e escritórios, ele abriu portas para o sucesso posterior do Commodore 64. Apesar disso, foi rapidamente superado por máquinas mais potentes e acessíveis.
Amstrad CPC: o computador europeu
Arquitetura: Alimentado pelo processador Zilog Z80 a 4 MHz, com RAM variando entre 64 KB e 128 KB, e gráficos coloridos suportando até 27 cores.
A série Amstrad CPC (Colour Personal Computer), lançada em 1984, foi muito popular na Europa, oferecendo uma solução integrada com monitor e gravador de fitas. Ele era particularmente querido por gamers e programadores amadores. Apesar do sucesso regional, o Amstrad CPC teve dificuldade em competir com máquinas como o Commodore 64 e o MSX em escala global.
Valorizar o esquecido
Esses computadores esquecidos representam mais do que circuitos e chips; eles são testemunhos da criatividade e engenhosidade humana. Cada um deles trouxe inovações que ajudaram a moldar a tecnologia moderna. Valorizar essas máquinas é uma forma de reconhecer os passos que nos trouxeram até aqui.
Os clones brasileiros adicionam uma camada fascinante a essa história. Muitas dessas adaptações locais foram criadas em tempos de restrições de importação, destacando a engenhosidade dos fabricantes nacionais e sua capacidade de atender ao mercado interno. Em uma época em que recursos eram escassos, os engenheiros brasileiros demonstraram criatividade ao adaptar tecnologias estrangeiras às realidades locais.
No Museu OldBits, essas histórias ganham vida. Entre conexões instáveis, telas foscas e interfaces rudimentares, encontramos um mundo rico de curiosidades e aprendizados. Por exemplo, sabia que muitos modelos tinham códigos de inicialização personalizados para carregar jogos? Ou que alguns engenheiros escondiam pequenas mensagens secretas nos ROMs dos sistemas?
Preservar essas relíquias não é apenas uma questão de nostalgia, mas também de aprendizado. Cada uma dessas máquinas pode inspirar soluções tecnológicas atuais, como o uso de design modular, exemplificado pelo Sharp MZ-80, que pode ser adaptado a dispositivos móveis e modulares modernos, ou a eficiência energética e o foco em portabilidade vistos no Osborne 1, que ressoam nas práticas de design de notebooks e tablets compactos. Além disso, o Xerox Alto nos mostra a importância da interface amigável, que hoje é um padrão em todos os sistemas operacionais. Até mesmo as inovações brasileiras, como o CCE MC-1000, nos lembram que a criatividade pode superar limitações econômicas, destacando o valor de soluções locais e adaptadas para mercados específicos. Essas máquinas contam histórias de superação, de experimentação e, claro, de uma boa dose de paciência — afinal, quem nunca esperou 15 minutos para carregar um jogo via fita cassete?
Venha conhecer, explorar e se apaixonar por essas relíquias digitais. Afinal, no universo da tecnologia, até o “esquecido” tem um papel essencial.
Referências
- Ceruzzi, P. "A History of Modern Computing." MIT Press, 2003.
- Freiberger, P., Swaine, M. "Fire in the Valley: The Birth and Death of the Personal Computer." McGraw-Hill, 2000.
- Old-Computers.com. "Historical Computers." Disponível em: www.old-computers.com.
- Museu OldBits. Acervo digital e histórico. Disponível em: www.oldbits.com.br.







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